• VALMIRIA DUATE

Antíteses

I

- Ele está muito doente, parece ser grave!

Aquelas palavras invadiram a sua alma, fazendo trepidar seus alicerces tão bem estruturados.

Soltou para fora o gancho de apoio o pesado telefone de cor chumbo e seus pensamentos ganharam um colorido incomum. Aquelas inesperadas palavras aturdiram lhe a mente e o seu coração que, encolhido, batia fortemente em seu peito bombeando o líquido vermelho, agora cor de vida.

Misteriosamente aquela aflição iluminava lhe os sentimentos e tendo mais clareza conseguia distinguir pérolas há tanto guardadas em seu peito. Foram longos anos de desolação e censura para, enfim, ter edificado seu esplendoroso castelo de menosprezo e torpor, onde conseguia sentir-se segura e resguardada das dores do seu passado.

Aos poucos o seu semblante desmanchou-se em lágrimas e seu desprezo em compaixão. Compaixão essa que, sabia ela, não viria sozinha. Estaria acompanhada de um sentimento com o qual não aprendera a lidar.

II

Há muitos anos quando ainda era uma menina, sonhadora e inocente, ela vira-se sozinha no mundo. Seu pai, encantado com o chamego de uma rapariga que trazia com ela os feitiços de mulher madura, saíra de casa, abandonando-a.

Desde então ela iniciara um caminho de remissão de suas angustias. Aprendera a custo de elevadas perdas, anular suas expectativas e dissipar sentimentos que já não lhe cabiam mais.

Já adulta e com a vida estável, seguira espontaneamente o caminho de obscuridade que ela mesma traçara e, agora, os vultos de uma iminente morte anunciara a conversão desse destino.

III

Vivera por longos dias sobre a presença daquela morte. Seu coração pouco a pouco era desnudado, fazendo com que ela reconhecesse sentimentos que não pensara ainda existir. Procurava desesperadamente um lugar seguro onde pudesse salvar a sua raiva fatalmente abalada pelos últimos acontecimentos.

Decidira colher notícias, discou o número que lhe fora dado, uma voz familiar articulou uma firme saudação. Aquele que outrora roubou-lhe a vida, pareceu-lhe que contornara a ameaça de morte. Sem responder ao cumprimento ela sutilmente desligara o telefone.

Seu coração pesaroso tranquilizara-se e em poucas horas não lhe restara nem sombras do que sentira nos últimos dias. Era novamente livre para viver seu ódio, ao menos por um tempo, até que a sorrateira morte venha excarcerar seu enclausurado amor.


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