• VALMIRIA DUATE

O Bonde


Ela entrara naquele mesmo bonde, sentara no mesmo lugar, rodeada com das mesmas pessoas, as mesmas vozes, as mesmas canções. No entanto, mesmo com tudo igual, algo naquele dia lhe soara diferente.

Desde o primeiro momento sentira a necessidade de mudança, de aceitar que pessoas que estiveram próximas a ela a vida inteira não mais estariam lá...sentira a dor da despedida. O dia lhe inspirava reflexões.

Algo dentro dela buscava um sentido para tudo aquilo, por que a vida lhe traria tantas coisas para lhe tirar depois? Não conseguia entender o propósito de tamanho engano.

Olhou as janelas, árvores, ruas, pessoas. Viu ao longe uma menininha, linda criança, com um laço enfeitando os longos cabelos que tinha cor de felicidade. Olhos de amor a acompanhavam, eram dos seus pais, como que orgulhosos de sua criação. Isso só acentuou ainda mais suas divagações, daria tudo para ter aquela experiência novamente, a felicidade de ter quem se ama em seus braços.

Por aquela janela já vira tantas coisas, cafeterias, amantes, amigos, amores, todos compunham um lindo cenário de memórias. Seria isso a vida? Um amontoado de memórias? Não podia reclamar, conquistara muito mais do que muitos tiveram a oportunidade, tivera uma linda carreira, orgulhara seus pais, construíra uma linda família. Ensinara e aprendera muitas coisas com aqueles que amara. Não poderia nesse momento olhar somente para a despedida! Mas sua dor sufocava lhe as lembranças, não planejara o fim, não tivera tempo para pensar nele.

Um a um os passageiros a olhavam, sabia que estava chegando a hora em que precisaria saltar daquele bonde e encarar a sua nova realidade. Não se sentia preparada. Tinha vontade de se segurar nas pessoas que lhe rodeavam naquele lugar, mas seus braços tão desgastados sequer encontravam forças para tal.

Olhou avidamente para cada um dos que a cercara, pareciam estar tranquilos, vivendo e aceitando o próprio ciclo da vida. Um misto de sensações tomavam-lhe a mente, realização e tristeza, alegria e saudade, medo e aceitação.

Ergueu levemente os olhos, fez uma última oração, uma combinação de prece e agradecimento por toda vivência que, de tamanha perfeição, parecia lhe soar tão efêmera. Fechou os olhos e assim se despediu, saltou do bonde da vida, embarcara na existência, e lá esperaria o dia em que poderia novamente abraçar aqueles que a acompanharam naquela linda jornada.

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