• VALMIRIA DUATE

Reparação

O quarto estava carregado de uma atmosfera desigual, seus olhos, compenetrados em mim, carregavam um brilho diferente; obscuro, sombrio. Em seu semblante havia um tom de amargura e vergonha. Sua vitalidade que há muito se esvaia, parecia estar ainda mais vulnerável. Senti, naquele instante, que o depois poderia não vir a existir e, na iminência da despedida, deveríamos preencher as lacunas formadas em nossa história.

No momento em que ela me pediu para que sentasse ao seu lado, eu soube que naquela conversa, a humilhação e indiferença que ela, a minha própria mãe, impusera sobre mim durante toda a vida haveria de ser explicado.

Seus pensamentos pareciam vaguear e, com os olhos marejados, ela começou a falar:

– Tudo aconteceu meses antes de você nascer. Era uma noite fria e a rua estava vazia. Eu, em estado de total inércia, apenas andava, sem sequer saber onde queria chegar. Há muito um tremendo vazio tomara conta da minha alma e contra ele eu já não tinha mais forças para lutar.

Seguindo para região mais nebulosa da cidade, por onde toda sorte de bêbados e vagabundos vagueava, eu simplesmente “estava”, não me sentia mais pertencente a esfera da vida. Sentei-me no balcão de um bar; pedi uma bebida e depois mais outra, costumeiramente eu me dispunha a tomar quantas fossem preciso para esquentar a minha alma, mesmo sabendo que tal tentativa seria em vão.

Era alta madrugada quando pedi a conta, bebi o suficiente para perder o equilíbrio, mas não a razão. A escuridão intensa me acompanhava naquela peregrinação. Avistei de longe alguns homens, pobres mendigos que, invisíveis, tentavam esquentar o frio que também tomara suas vidas. No limiar da indiferença que sucumbe a razão, eles sobreviviam de restos, como se não passassem de bichos selvagens.

Uma inaceitável afinidade nos ligava, no exílio de minha própria existência percebi que não era tão diferente daqueles seres. Tive por eles empatia e consternação. Há quanto não sabíamos, ao menos, o que era viver! Senti-me pertencente ao mesmo destino que os acometera, os caminhos de uma vida que esquecera de morrer.

Não demorou para que eu me deitasse com eles por sobre seus sujos cobertores. Sem escrúpulos ou zelo, apenas me deixei ser devorada por aqueles homens famintos de paixão. Não sei quantos foram e nem quantas vezes suas bocas imundas percorriam a minha pele e seus sequiosos corpos penetravam, violentamente, a minha alma. Insensatez, tristeza e desmedida ilusão, tudo se misturou aos fluidos que encharcaram meu vestido na noite de sua concepção...

Sua voz cessara, seus olhos se fecharam e eu, embasbacado, olhei para ela e compreendi todo o seu desamor...Eu era o fruto do encontro entre a insignificância e a aflição.


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