• VALMIRIA DUATE

Veneno da alma

Ela entrara do banho há minutos, desejando, sem sucesso, que a força com que esfregara o sabonete sobre a pele limpasse a vergonha e humilhação que sentia. Novamente teria de sair daquele banheiro e enfrentar toda sujeira a qual sua vida se transformara.

Sentado no sofá, seu padrasto descansava calmamente. Para todos, um homem bom, mas não para ela. Era visto como um compassivo cristão que dedicava-se a cuidar daqueles que careciam de sua ajuda. Há alguns anos, sem pestanejar decidiu cuidar da enteada, mesmo sem com ela ter nenhum laço sanguíneo, depois que o frágil coração de sua esposa insistira em parar de bater.

O cuidado que ele tinha com a menina era visível, mantinha sempre ela por perto, cuidando que não andasse em más companhias e fosse uma moça recatada, como as moças daquele tempo deveriam ser. Cuidava que fosse a missa, lesse a bíblia e tivesse temperamento brando, com economia de palavras. Era notório o carinho que sentia pela menina, talvez maior do que o carinho de um genuíno pai.

Com uma índole incontestável fomentava apreço na comunidade, o que revertia qualquer levante contra ele.

Do sofá ele lançou sobre ela um olhar penetrante, ardiloso que ela bem conhecia, antevia mais uma cena de voluptuosa gratidão. Falou manso, querendo uma bebida quente, pediu que lhe passasse um café.

Com coração flagelante ela dirigiu-se a cozinha, de longe contemplou o frasco de veneno que fora comprado a fim de combater os ratos que, como praga, corroíam toda sombra de vida que ainda havia naquela casa.

Colocou a água no fogo...olhou novamente para o padrasto e depois para o frasco. O veneno a tomou e, naquela tarde, presumo, ela preparou o café mais saboroso de sua vida.


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