• VALMIRIA DUATE

Verdades traiçoeiras

Tivera uma infância regrada, seus pais, exímios educadores, buscavam na única filha exemplo de retidão. Aprendeu, com muita veemência a conter suas paixões. Por vezes, ousava, na calada da noite ver aquilo que lhe era proibido, isso a atraia, embora também a conturbasse por ir contra a tudo aquilo que lhe fora ensinado.

Fora em meio a esse desassossego que conhecera seu marido, o que lhe ajudara a conter anseios e reprender pensamentos que, sabia, não poderia ter.

Tornara-se a mulher que fora condicionada a ser, contudo em seu peito crescia o vazio. A sua existência mostrava-se, cada vez mais, apática e sem cor. Não era feliz, não porque sua vida era ruim, mas por não conseguir encontrar nela o brilho de que tanto ouvia falar.

Aos olhos dos outros era privilegiada, tivera a ventura de um bom casamento, um homem que a amava estoicamente, como sonhava toda mulher. Era atencioso, não era levado ao ardor do ciúme ou entregue a decadência dos vícios ou manias, respeitava e encorajava a mulher, sempre exortando sua idoneidade e capacidade de ir além. Torcia por seu sucesso, qual um jovem entusiasmado na arquibancada de seu time favorito. Era firme, porém de amor manso. Promovia em sua casa encontros e jantares, primava as relações sociais e orgulhava-se da vida que construíra.

Ela, nessas reuniões, sempre tinha em seu rosto um sorriso quase que insosso, de uma alegria frágil e servil. Sentia-se deslocada, não nos lugares, mas na vida; como se a sorte que tivera não fosse sua, e a vida que levava não sucumbisse a sua essência, essência essa que ela mal sabia qual era, nunca ousara olhar demasiadamente para dentro de si, não aprendera a lidar com a complexidade de tal ato. Antes, sem ousadia, dirigia o seu olhar para o atingível, o perceptível, mesmo que nele não pudesse depreender com clareza aquilo que sentia.

Na cama ele, um bom amante, tocava-a com paixão. Abria-lhe, de todas as formas, o corpo ao prazer. Ver o gozo da mulher era seu frenesi. Ela, entregava-se ao deleite, o que não lhe sucumbia o vestígio de sua própria privação.

Seus pensamentos foram ganhando força e a incongruência e sua rotina lhe fizeram olhar para si. Arrumou-se e, pela primeira vez, viu diante do espelho o reflexo de quem ela era. Andou decidida pela calçada e, explicitada em uma esquina qualquer, em uma vitrine de corpos nus, ela encontrou a vida que quisera sempre ter.


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